A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 começa de fato no fim de julho, mas quem cobre mercado já está montando a planilha. A regra de ouro, como sempre: não é o número em si que move o papel, é o número contra a expectativa. E a expectativa, esta temporada, está mais espalhada do que o normal.

Bancos costumam abrir a fila. O relógio da CVM permite divulgação a partir do dia 22 de julho para quem encerra junho no calendário corporativo. Depois vêm as varejistas, as empresas de energia e, mais para o fim, as siderúrgicas — estas últimas, como de hábito, sempre as últimas a fechar contas. Marcamos abaixo o que vale acompanhar antes que os releases cheguem.

Bancos: o que olhar primeiro

Em banco, três números importam mais do que o lucro líquido — e costumam dizer mais sobre o trimestre. São eles: a margem financeira, o índice de inadimplência (mais especificamente a inadimplência acima de 90 dias) e a cobertura. O lucro pode vir surpreendendo por uma linha não operacional e ainda assim o crédito estar apertando.

“Eu leio o lucro por último. A primeira página que eu abro é a de provisão.” — analista de bancos de gestora independente.

A aposta geral é que o segundo trimestre mostre inadimplência estabilizada, com margem levemente comprimida pelo custo de captação. Se isso se confirmar, a temporada de bancos será esquecível — o que, em banco, costuma ser boa notícia. O problema é quando é memorável pelo motivo errado.

Em banco, trimestre esquecível é trimestre bom. Memorável costuma ser ruim.

Varejo: o efeito Copom defasado

O varejo é onde a decisão do Copom aparece com defasagem. Juro alto demora a chegar no cartão e na loja; juro baixo demora a sair. Significa que os balanços de 2T26 ainda refletem o pico da Selic do início do ano, mais do que o corte que veio em maio e junho. Quem ler o resultado como reação imediata à queda de juros vai se enganar.

O que vale olhar no varejo: mesmas lojas (a métrica que isola o que já existia), margem bruta (que diz se a empresa está conseguindo repassar ou absorvendo custo) e endividamento de curto prazo. As três juntas contam uma história melhor do que o EBITDA isolado.

O calendário que montamos

Não é exaustivo — é o que a nossa editoria vai cobrir com mais atenção. As datas podem mudar de acordo com os pedidos de prorrogação que a CVM costuma conceder. Mantemos a lista atualizada nas semanas que antecedem cada divulgação.

  • 22 a 24 de julho — primeiros bancos de grande porte. Foco em inadimplência.
  • 28 a 31 de julho — varejistas de vestuário e eletro. Foco em mesmas lojas.
  • 1.ª semana de agosto — distribuidoras de energia. Olhar na receita líquida e PMSO.
  • 2.ª quinzena de agosto — siderúrgicas e papel. Últimas a fechar, como sempre.

Como a Pauta do Dia vai tratar a temporada

Não vamos cobrir todas as empresas. Seria impossível para três pessoas e, francamente, nem tudo merece parágrafo. A ideia é escolher cinco ou seis releases que de fato digam algo sobre o trimestre — não necessariamente os maiores, mas os mais representativos. Se você quiser um guia de como ler um release sem se afogar em adjetivos, publiquei um texto prático na semana passada.

E como de praxe: o que aqui está é leitura editorial, não recomendação. A temporada de balanços é um bom momento para entender o trimestre; é um péssimo momento para achar que se entende a empresa inteira. A diferença entre as duas coisas é o que separa jornalismo de palpite.